HÓSPEDE AMEAÇADOR: SCLEROTINIA SCLEROTIORUM EM CITROS

HÓSPEDE AMEAÇADOR: SCLEROTINIA SCLEROTIORUM EM CITROS

O fungo Sclerotinia sclerotiorum é relatado em centenas de espécies de plantas cultivadas e daninhas. Conhecida por mofo branco a doença causada por esse fungo provoca grandes danos às culturas de soja, feijão, algodão, girassol, tomate, batata e alface, em especial nas regiões ou épocas de clima mais frio e úmido. A altitude da região também é determinante para o seu surgimento, prevalecendo em locais com mais de 700m e em áreas irrigadas por pivô central (Furlan, S.H., 2012).

As principais unidades de infecção do fungo (inóculo) são as estruturas de resistência, os escleródios, que permanecem viáveis por mais de cinco anos no solo, e os ascósporos, provenientes dos corpos de frutificação (apotécios), que infectam as flores, uma importante fonte de energia para as primeiras infecções.

Nas regiões de maiores altitudes há grandes chances de ocorrer uma epidemia, resultante das menores temperaturas noturnas e longos períodos de orvalho. O problema agrava-se quando as precipitações são frequentes no estádio de florescimento e início da frutificação, em sincronia com o fechamento das linhas de semeadura, o que depende, sobretudo, da arquitetura, do porte, do adensamento e do espaçamento das plantas.

Os sintomas aparecem em toda parte aérea da cultura, caracterizados inicialmente por lesões encharcadas, que evoluem para podridões e murcha. Facilmente observa-se a presença de micélio branco cotonoso na superfície do solo e nos tecidos vegetais, onde há posteriormente a formação dos escleródios, interna ou externamente às partes atacadas.

 

Em citros, a ocorrência de S. sclerotiorum foi pouco relatada no mundo (Saharan & Mehta, 2008), por exemplo, em Citrus volkameriana na Itália (Polizzi et al, 2011) e no Brasil, encontra-se catalogado pela Embrapa/Cenargen (http://pragawall.cenargen.embrapa.br/aiqweb/michtml/fgbd02a.asp), sendo mencionado o Citrus sp. L. (Rutaceae) como um dos hospedeiros, entre muitos outros. Nesta cultura, foi descrito por Rosseti, V.V., em 2001, no Manual Ilustrado de Doenças dos Citros. Entretanto, faltam trabalhos de pesquisa que comprovem cientificamente a sua patogenicidade e danos ocasionados a citros.

O objetivo deste trabalho foi relatar a ocorrência de S. sclerotiorum como patógeno à cultura do citros em área cultivada no Brasil e, confirmada a sua patogenicidade pelos postulados de Koch, além de conhecer as interações entre este isolado de citros e outros dois oriundos de soja e feijão.

 

Experimento em laboratório

 

Hastes e ramos de plantas de citros (limão Galego), provenientes de pomar de Castro, Paraná, com aproximadamente quatro anos de idade, apresentando lesões e micélio branco nos tecidos, em cerca de 5% de incidência, foram coletados no inverno/primavera de 2011 e encaminhados ao Laboratório de Fitopatologia do Instituto Biológico, para diagnóstico.

Fez-se o procedimento padrão de isolamento direto e indireto de parte dos tecidos infectados, utilizando placas de Petri contendo meio de cultura BDA. Após cinco dias de incubação em BOD, a 22ºC, fotoperíodo de 12 horas, iniciou-se o crescimento das colônias.

O fungo foi repicado e multiplicado para posterior inoculação em plantas de citros sadias, da mesma variedade do isolamento inicial. Após a reprodução dos sintomas, fez-se re-isolamento a partir das lesões, para assim completar os postulados de Koch e comprovar o diagnóstico.

Para estudar as interações entre os isolados do fungo, fez-se a inoculação cruzada em três hospedeiros: citros, feijão e soja, isto é, utilizou-se um isolado proveniente de cada cultura, em que cada um deles foi inoculado nos diferentes hospedeiros. Para isso, foram utilizadas mudas de citros com aproximadamente 12 meses de idade, provenientes de viveiros comerciais, de cinco variedades: Galego, Pera, Dekopon, Taiti e Ponkan, sendo o feijão da cultivar Pérola e a soja da cultivar BRS 245. Ambas as leguminosas tinham 21 dias de emergência no dia da inoculação.

O método de inoculação adotado foi o de discos de colônia de micélio de 0,8cm de diâmetro, crescidos em BDA por oito dias, à temperatura de 22ºC e fotoperíodo de 12 horas. Foram dispostos cinco discos por planta, presos por uma fita adesiva, utilizando-se o total de cinco plantas (repetição) por vaso para o feijoeiro e para a soja, e cinco mudas (repetição) para os citros.

As plantas inoculadas foram mantidas em câmara de crescimento com nebulização, à temperatura regulada de 22ºC ± 1ºC e UR ≥ 70%, durante dez dias.

Após quatro dias da incubação iniciaram-se as primeiras lesões nas folhas de soja e feijão e, depois de sete dias, surgiram nas folhas de citros, quando se procedeu a primeira leitura. A avaliação foi feita com base na positividade ou não dos sintomas nas folhas inoculadas, ou seja, na presença ou não das lesões foliares.

Aos dez dias da incubação fez-se a avaliação da severidade dos sintomas nas folhas, atribuindo-se notas de 1 a 6, com base no maior comprimento das lesões, onde 1 = ausência de lesões; 2 = lesões de até 1cm; 3 = 1,1cm a 2cm; 4 = 2,1cm a 3cm; 5 = 3,1cm a 4cm; 6 = acima de 5cm ou morte completa da folha.

Em seguida, foi realizado o re-isolamento do fungo em cada hospedeiro, para confirmar a sua patogenicidade, seguindo a mesma metodologia de isolamento do fungo feita inicialmente.

 

Presença confirmada

 

Pelos sintomas obtidos após a inoculação e o re-isolamento do fungo estudado, foi confirmado o diagnóstico de Sclerotinia sclerotiorum, agente causal do mofo branco, nas folhas de citros inoculadas, reproduzindo o crescimento de colônias típicas do fungo com micélio branco e presença de escleródios. O período de incubação da doença em feijão e soja foi menor que em citros, ou seja, os sintomas surgiram quatro dias após a inoculação nas folhas de feijão e soja, e após mais três dias, em citros, indicando serem os tecidos menos suscetíveis.

As reações positivas indicam a patogenicidade dos isolados ou a suscetibilidade da espécie hospedeira frente ao isolado testado, enquanto que a negatividade aponta a inexistência da patogenicidade, ou, então, a possibilidade de um escape, isto é, a ausência de sintomas decorrentes, por exemplo, da falta de condições mais adequadas para o desenvolvimento da doença ou qualquer outro fator desconhecido (Tabela 1).

Pelas inoculações cruzadas dos isolados procedentes de citros, feijão e soja, foi verificado que: para os isolados de feijão e soja houve a reprodução dos sintomas em ambos os hospedeiros, indicando que o isolado de feijão é patogênico para a soja e vice-versa. Para o hospedeiro citros, a positividade foi obtida quando se inoculou o isolado de citros nas variedades Galego, Taiti, Dekopon e Ponkan, mostrando-se estas, com exceção da Pera, suscetíveis nas condições do ensaio. O isolado de citros também reproduziu sintomas em feijão e soja. O isolado de feijão foi patogênico em citros apenas para a variedade Ponkan e o de soja não o foi em nenhuma das variedades de citros testadas (Tabela 1).

Pela severidade dos sintomas da doença observa-se que as variedades de citros Galego e Taiti foram as mais suscetíveis à inoculação, com notas 4,8 e 4,0, respectivamente, seguidas pela variedade Dekopon, com nota 2,7. As mais resistentes foram a Ponkan (nota 1,3) e a Pera, que não apresentou sintomas quando inoculada. Ressalta-se que a laranja Pera foi a única que não apresentou reação positiva quando inoculada com quaisquer dos isolados testados (Tabela 2). Isto pode indicar uma resposta de melhor defesa desta variedade a este patógeno, porém, não exclui a possibilidade de escape e até mesmo uma possível reação de suscetibilidade a um outro isolado de S. sclerotiorum não testado neste ensaio.

Comparando-se os isolados de soja e de feijão, não parece haver especificidade de cada um deles com seus respectivos hospedeiros. Isto pôde ser constatado pelo fato do isolado de feijão mostrar agressividade semelhante para as duas culturas (notas de severidade de 4,5 e 4,6, respectivamente para as plantas de feijão e soja). O isolado de soja apresentou menor agressividade que o de feijão, para ambas as culturas, com notas 3,3 e 3,5, respectivamente. Os sintomas em soja, feijão e citros, após as avaliações, evoluíram rapidamente, alcançando 100%. Já o isolado de citros pareceu apresentar uma maior especificidade, por ocasionar maiores severidades dos sintomas em plantas de citros, especialmente nas variedades de limão Galego e Taiti, em relação aos sintomas ocasionados em feijão e soja (Tabela 2).

Para melhor concluir sobre as interações entre os isolados e os hospedeiros, e avaliar a especificidade deles, um maior número de isolados e de variedades de cada espécie vegetal deveria ser utilizado nos cruzamentos. Neste trabalho, apesar da ocorrência de algumas reações de negatividade, acredita-se na possibilidade de escapes, que são comuns a este tipo de inoculação com discos de micélio aqui utilizados pela sua praticidade e rapidez.

Pode-se por este trabalho confirmar a patogenicidade de S. sclerotiorum em plantas de citros, provenientes de pomar localizado em região de clima frio. Estudos de danos nesta cultura são importantes pela relevância do mofo branco em várias outras espécies de plantas hospedeiras no Brasil.

Tabela 1 – Reação positiva (+) ou negativa (-) de plantas de cinco variedades de citros, uma de feijoeiro e uma de soja, frente às inoculações cruzadas dos isolados de S. slerotiorum, oriundos de seus respectivos hospedeiros, após sete dias da incubação.

 

Isolados

de

Reação dos hospedeiros inoculados
Citros Feijão Soja
Galego Taiti Pera Dekopon Ponkan Pérola BRS-245
Feijão + + +
Soja + +
Citros + + + + + +

 

 

Tabela 2 – Severidade dos sintomas (notas de 1 a 6, baseadas no maior comprimento da lesão, onde 1 = ausência de lesões e 6 = acima de 5cm) causados por S. sclerotiorum, nos hospedeiros de citros, feijão e soja, após dez dias das inoculações cruzadas

Isolados de Severidade dos sintomas nos hospedeiros inoculados – notas
Citros Feijão Soja
Galego Taiti Pera Dekopon Ponkan Pérola BRS-245
Feijão 1 bC 1 bC 1 aC 1 bC 3,6 a B 4,5 a A 4,6 a A
Soja 1 bB 1 bB 1aB 1 bB 1 bB 3,3 b A 3,5 bA
Citros 4,8 aA 4,0 aA 1aC 2,7 aB 1,3 bC 3,0 bB 1,6 cC

Médias seguidas pela mesma letra minúscula, na vertical, e mesma letra maiúscula, na horizontal, não diferem significativamente entre si.

 

Silvânia Furlan; Maurício Van Santen; Juliana A. Borelli

 

Clique aqui para ler o artigo na edição 78 da Cultivar Hortaliças e Frutas.  

 

Grupo Cultivar

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