PESQUISA IDENTIFICA ALTA CAPACIDADE DE PREVENÇÃO A DOENÇAS EM FRUTAS DESCONHECIDAS: ‘UMA REDESCOBERTA’

PESQUISA IDENTIFICA ALTA CAPACIDADE DE PREVENÇÃO A DOENÇAS EM FRUTAS DESCONHECIDAS: ‘UMA REDESCOBERTA’

Estudo da Esalq, em parceria da Unicamp, engloba dez espécies. Uma das próximas etapas é avaliar possíveis propriedades de cura.

Araçá-boi, cambuití-cipó, murici vermelho, juquirioba… Já experimentou alguma delas? Embora sejam pouco conhecidas, estas e outras frutas nativas possuem um potencial de prevenção a doenças cardiovasculares, diabetes, mal de Alzheimer, Parkinson, tipos de câncer e até obesidade superior a outras espécies mais popularizadas.

Essa é a conclusão de um estudo desenvolvido no Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP/ESALQ), em parceria com a Faculdade de Odontologia (FOP) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no qual foi avaliado o potencial antioxidante, anti-inflamatório e a composição fenólica de dez frutas nativas.

De autoria da engenheira de alimentos Jackeline Cintra Soares, o estudo tem orientação do professor Severino Matias de Alencar, do departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição, e a etapa de análise do poder preventivo durou três anos.

Além das já citadas, foram mapeadas o murici guassú, o morango silvestre, o cambuci, o jaracatiá-mamão, a fruta-do-sabiá e o cajá. As coletas ocorreram no Sítio Frutas Raras, localizado na cidade de Campina do Monte Alegre (SP), exceto o cajá, que foi coletado na Fazenda Gameleira, município de Montes Claros de Goiás (GO). As espécies são encontradas na mata atlântica e no cerrado.

Na prática, segundo Pedro Luiz Rosalen, professor titular da Faculdade de Farmacologia da Unicamp e um dos membros do grupo de estudos, elas são fontes de substâncias que controlam radicais livres que causam pequenas inflamações em vários lugares do organismo.

Valorização

“Nós queríamos algo inovador, algo que trouxesse um diferencial para a comunidade, a sociedade. Poder valorizar aquela fruta que tá no quintal e você não sabe nem o nome e nem o que é”, contou Jackeline. No trabalho, ela identificou até 21 compostos diferentes em uma fruta. “Qual tem atividade que está fazendo toda essa diferença eu ainda não sei. Vai ter de isolar. Pode ser que seja uma ou mais. São os passos seguintes da pesquisa”, revelou.

Para chegar ao resultado, a autora da pesquisa comparou as propriedades benéficas de frutas mais conhecidas, como uva, cereja e mirtilo, com as das suas dez escolhidas. “Então, as frutas [foco do estudo], principalmente a cambuití-cipó e o murici guassú, elas tiveram uma atividade [biológica] de sete a dez vezes superiores a essas frutas [mais popularizadas]”, detalhou.

Proteção, também, da fruta

Rosalen e Jackeline pontuaram que a natureza produz os compostos fenólicos para se defender de insetos e outros animais. Alencar cita a escolha de locais específicos para a produção de uma fruta mais popular, a uva, que também tem propriedades antioxidantes. “Nesse local [vinícola] tem um microclima que favorece o desenvolvimento de microfungos e outros microorganismos que a planta, para se defender, ela se protege se enriquecendo de compostos fenólicos”, relatou.

Atuação em curas

Agora, um dos próximos passos da pesquisa é isolar os compostos que estão diluídos nessas frutas, e uma vez isolados, será possível concentrar quantidades grandes deles, permitindo a atuação em situações agudas e até em processos de cura, por meio da produção de medicamentos. Esse novo processo deve durar ao menos cinco anos, aponta o orientador.

Outra etapa em avaliação é a produção de alimentos funcionais, como extratos, com antioxidantes naturais extraídos destas frutas.

O orientador do estudo ressalta que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que sejam consumidos 400 gramas de vegetais e frutas diariamente e que o consumo do brasileiro está bem abaixo disso.

Ameaçadas

Mas nem tudo é para ser comemorado. A degradação da natureza pelo homem coloca em risco o futuro dessas espécies antes mesmo que elas sejam conhecidas em larga escala e possam ajudar a melhorar a qualidade de vida das pessoas.

“Com o passar do tempo, o homem está degradando, com o avanço da urbanização e outras atividades. Ele está destruindo isso que ainda não foi introduzido no comércio e perdendo a biodiversidade”, lamentou Rosalen.

‘Redescoberta’ do Brasil

Tanto a autora do trabalho quanto os docentes reforçaram a necessidade de se valorizar as frutas nativas por uma série de razões, desde a vasta gama de espécies inexploradas até pela oportunidade de mercantilização disponível.

Rosalen lembrou da colonização do Brasil para buscar explicações para este alto nível de desconhecimento em relação àquelas que são provenientes do território nacional. “Eles [colonizadores] tinham receio, isso em 1.500, receio de consumir os frutos nativos porque achavam que eles eram venenosos. E aí, o que eles fizeram? Eles começaram a trazer as frutas que eram conhecidas na Europa para o Brasil. E até hoje estamos nessa dependência. O trabalho da Jackeline traz um outro olhar, uma redescoberta”.

E pelo desconhecimento, exemplifica, muitos utilizam para decoração árvores com frutas ricas em substâncias benéficas à saúde.

Novos sabores, ‘novos açaís’

Mas há contrapontos, e o país tem um exemplo relativamente recente. “Se for você ver o açaí, até a década de 90 ninguém conhecia. […] E hoje a produção de açaí tá subindo muito. O mercado americano, todo mundo quase já conhece açaí. O mercado japonês também. […] Então, uma das premissas do trabalho nosso aqui é ver se a gente encontra ‘outros açaís’”, exemplificou Alencar.

E para cair no gosto popular tem de seduzir os paladares. Isso, os acadêmicos garantem que está garantido. “São todas muito gostosas. É que cada uma tem uma caraterística. Uma é mais ácida, uma é um pouco mais doce. Uma é mais seca, a outra é mais suculenta”, revelou Jackeline.

 

Alencar foi o orientador de Jackeline na realização do estudo (Foto: Rodrigo Pereira/G1)

Rosalen, Jackeline e Alencar: estudo traz ‘novo olhar’ a frutas nativas, avaliam (Foto: Rodrigo Pereira/ G1 Piracicaba)

 

Por Rodrigo Pereira, G1 Piracicaba e Região

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